sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lição de uma jovem colega

Aconteceu no bar do grill da Universidade do Minho, no fim de semana passado (15/12/2017). Encontrei uma colega à hora de almoço nos corredores da Escola de Direito e combinámos almoçar.

De notar que temos no restaurante e no grill da UM um serviço de refeições de boa qualidade com pessoal da casa. Duvido que tivesse a mesma qualidade se fosse um serviço concessionado.

Bebemos apenas água. Mas enquanto eu levei, com a sopa e o prato, água numa garrafa de plástico, a minha jovem companhia de mesa, que ia mais à frente na fila, levou no tabuleiro um copo de água da torneira.

E, perante a minha curiosidade, o argumento dela foi bem simples. Disse: se não confiamos na água da torneira, que é constantemente vigiada, então como é? Sucede, ainda, acrescentou, que não sabemos quando e como é controlada a água da garrafa.

Calei-me e apenas disse que a minha opção tem o enorme defeito de contribuir para o assustador aumento do lixo de plástico.

Já tinha recebido igual lição em Lisboa por parte da Presidente da Assembleia Municipal, que num jantar, depois de uma sessão pública, também bebeu água da torneira e não de garrafa, no que tive de a acompanhar.

Sei que esta opção pela água da canalização suscita muitas resistências e que não será fácil para quem tem meios financeiros largar a garrafa de água com um rótulo a prometer bebida de excelente qualidade. Por outro lado, aos restaurantes e cafés também não lhes agradará a ideia de ficarem sem esta fonte de receita tão importante no seu dia-a-dia.

No entanto, há razões para beber água da torneira: ela é vigiada e analisada e está em condições de ser consumida. Não tem sentido aumentar as montanhas de plástico que a água engarrafada provoca. É de admitir, quando muito, a água em garrafa de vidro, dado que este material é reciclável.

Para se levar a cabo esta revolução no consumo, é importante uma política activa dos municípios e das autoridades de saúde, incentivando o hábito de beber a água potável que chega às nossas casas e aos cafés e restaurantes em boas condições através da rede pública de distribuição.

É um trabalho da maior importância e urgência e que só não será feito se as autoridades municipais e sanitárias, elas próprias, não confiarem na qualidade da água que fazem chegar aos cidadãos. Esta publicidade é fácil de fazer, desde logo nos websites do município, como ainda nos placards que estão disponíveis por toda a cidade e nos meios de comunicação social.
Quanto aos restaurantes e cafés, que se poderão sentir prejudicados com esta mudança de hábitos, sempre haverá modo de os compensar. Aliás, eles deveriam ser parte activa na luta pelo consumo de água pública.
A este propósito, seria de todo o interesse fazer um estudo sobre os hábitos de consumo de água dos munícipes, até porque se sabe que há muitas pessoas que recorrem, em alternativa, a fontes públicas que são tidas como possuindo boa água. 

(Em Diário do Minho, 22/12/17)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Braga-Porto: os comboios rápidos são lentos!

Os comboios Alfa Pendular fazem o percurso Braga-Famalicão em 16 minutos. Por sua vez, o percurso entre Famalicão e Campanhã demora cerca de 24 minutos. Um total de 40 minutos entre Braga e Porto Campanhã.
Entretanto, os comboios urbanos rápidos (há comboios urbanos lentos e rápidos) entre Braga e o Porto fazem o trajecto Braga-Famalicão em 17 minutos (apenas mais um minuto do que o Alfa) e o trajeto entre Famalicão e Porto Campanhã em 33 minutos, ou seja, mais 9 minutos do que o Alfa.
Pode daqui concluir-se que um comboio rápido urbano poderia fazer o percurso Famalicão-Porto mais rapidamente e sempre em menos de 30 minutos.
Por que tal não acontece? Porque o comboio rápido urbano, depois da Trofa e São Romão, pára na Travagem e em todas as estações que há pelo caminho, ou seja, em Ermesinde, Águas Santas, Rio Tinto, Contumil e Porto Campanhã (são 5 paragens). Isto significa que, na verdade, o comboio só é rápido até à Travagem.
Só quem o utiliza sabe o que é viajar lentamente em comboios rápidos que, ainda por cima, transitam com muita gente em pé, o que não só é incomodativo, como perigoso para a segurança dos passageiros.
Importa lutar para que os comboios rápidos Porto-Braga e vice-versa sejam efectivamente rápidos também entre São Romão e Porto São Bento, ou sentido inverso, fazendo menos paragens.
Isto é um trabalho dos utentes que tem vindo a ser feito através da Associação Comboios do Século XXI e do seu boletim, mas que precisa também da ajuda dos municípios da Trofa, Famalicão, Barcelos e Braga e da atenção dos meios de comunicação social.
É de notar que entre Ermesinde e o Porto há muitos comboios e poderiam ser colocados outros para servir quem ali mora. O que não é de admitir é que os passageiros que querem viajar rapidamente, sentados e em segurança, a partir do Porto para a Trofa, Famalicão, Nine e Braga (ou em sentido inverso) não o possam fazer.
Quando se apresentam estes problemas para serem resolvidos junto da CP, a resposta é negativa, afirmando-se que nada pode ser feito, pelos mais variados pretextos. Não se vê vontade firme de resolver estes problemas, apesar de esta ser uma linha muito procurada e frequentada.
A tendência geral dos utentes e dos municípios é a conformação com a situação existente, mas não devia. Seguindo a via da conformação, ainda poderíamos andar em automotoras a diesel do século passado.

(Em Diário do Minho, 23/11/17)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Fogos e florestas

Quem vem do Porto para Braga na autoestrada (A3) fica chocado com a mancha castanha que cobre os montes do Sameiro e da Falperra, em resultado dos grandes fogos do passado domingo, dia 15 de Outubro de 2017.

É necessário conservar todos os registos fotográficos que sejam possíveis e preservar, para memória futura, os nefastos efeitos de uma calamidade desta envergadura. E será importante comparar com fotografias das mesmas áreas daqui a cinco anos.

Até agora, tem sido dada uma especial atenção a este grave problema, quer por parte do poder político, quer pela sociedade civil, não só entre nós, como em todo o país.

Ainda ontem, dia 15 de Novembro, teve lugar, no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade do Minho, um debate acerca dos incêndios florestais, da gestão do território e da responsabilidade social pelos fogos, contando com a presença de oradores de variadas vertentes do saber.

Esta será uma sessão importante também por nela se apresentar a Licenciatura em Protecção Civil e Gestão do Território, uma das mais recentes licenciaturas da Universidade do Minho, que ficará integrada no departamento de Geografia do ICS desta instituição de ensino.

Todos estes contributos são importantes. É fundamental debater os problemas e encontrar soluções, apostando também na formação de novos quadros e preparando-os devidamente para os desafios que a Natureza nos coloca.

Os próximos meses serão um importante teste aos portugueses, à sua capacidade de enfrentar com seriedade este problema e de lhe dar uma solução adequada.

Este ano comprovou-nos que, apesar de muito necessário, não podemos contentar-nos com o mero combate aos fogos, nem mesmo com acções de prevenção (ainda que estas sejam absolutamente essenciais). É preciso ir mais longe e modificar profundamente a política em Portugal.

A legislação neste domínio deve ser uma das mais significativas expressões dessa politica e, neste momento, ela é, não só dispersa, como descoordenada.

(Em Diário do Minho, 16/11/17)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Colecções de leis em perigo

Vamos a caminho dos 200 anos da Revolução Liberal (1820-2020) e ao longo destes dois séculos produziu-se muita legislação que vale a pena ler e ainda hoje importa consultar. Aprende-se muito. Infelizmente, tal consulta não é fácil e bem se justificava que a mesma estivesse já digitalizada e disponível na internet

Repare-se que hoje é possível, através da página da Assembleia da República, consultar os debates parlamentares ocorridos em Portugal desde o século XIX (mais concretamente, desde 1821), num trabalho dos serviços da Assembleia da República que merece todo o aplauso. Não obstante, continua a não ser possível ter acesso às leis efectivamente publicadas nesse mesmo período, muitas delas resultantes desses debates. 

Em Braga, temos a sorte de poder aceder a boa parte desses diplomas legais através da venerável Associação Jurídica (AJB), que possui colectâneas de legislação de quase todo o século XIX e de parte da I República. 

Estes textos legislativos encontram-se, também, na Biblioteca Pública de Braga, podendo nela ser consultados, desde que seguindo as formalidades do respectivo regulamento.

Tememos que não se dê a estes diplomas a importância que merecem e que haja, porventura, nas mãos de particulares, preciosas colecções de legislação do século XIX e da primeira metade do século XX que possam estar em risco. 

Problema grave será que essas coleções possam acabar por desaparecer. Para evitar que tal suceda, seria bom que instituições, públicas ou privadas, as obtivessem, por generosidade dos seus proprietários ou a um preço acessível. 

Não podemos criticar os proprietários pelos riscos que correm essas obras, pois muitos deles terão dificuldades de manutenção das mesmas, pois requerem espaço e especiais cuidados de conservação que custam dinheiro. 

O que podemos é fazer o que estiver ao nosso alcance para que esse património não se perca e antes seja colocado ao dispor de quem precise, ou tenha o gosto, de as consultar e ler. A primeira e urgente tarefa é procurar saber quem o possui e conversar.

(Em Diário do Minho, 02/11/17)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Os doentes não merecem greves!

As greves na saúde têm uma característica muito especial que as diferencia de outras. Na verdade, os que a sofrem são as pessoas que estão internadas ou com cirurgias e tratamentos marcados e que ficam fortemente afectadas com as paralisações.

As greves na saúde deveriam ser diferentes: os médicos ou enfermeiros deveriam trabalhar na mesma, mostrando desse modo o cuidado que dão aos doentes, mas deveriam recusar o dinheiro dos dias de greve. Tudo sem prejuízo de um período de tempo, relativamente curto, para vir cá fora falar com a comunicação social, expondo as suas razões. Procedendo assim, mereciam todo o respeito e teriam, do seu lado, não só os doentes, como os cidadãos em geral, ficando o Governo numa situação muito mais difícil. Os cidadãos seriam informados das razões da greve e estariam, seguramente, a apoiar os médicos e enfermeiros grevistas.

Dir-se-á que esta forma de greve não seria a mais eficaz. Discordamos. Teria muito mais força, pois teria a opinião pública do seu lado, desde que os motivos fossem razoáveis. Todos estamos de acordo que médicos e enfermeiros devem ser bem pagos, dentro das nossas possibilidades. A greve tradicional é sempre injusta, pois faz padecer aqueles que não têm culpa e que se encontram numa situação de muita fragilidade.

O Governo, por sua vez, pouco sofre, podendo apontar aos profissionais de saúde grevistas a desumanidade do seu comportamento e colocar a opinião pública contra eles. E já se reparou que a informação sobre as razões destas greves é deficiente? As pessoas ficam sempre com a ideia de que o que está em causa é mais dinheiro. Mas de dinheiro precisam todos os funcionários e não só os que fazem greve. Frequentemente, quem menos recebe na função pública, menos condições tem para organizar uma greve.

Uma greve, fazendo sofrer quem está doente ou quem precisa de cirurgias, consultas ou tratamentos, só se poderia justificar numa situação extrema em que os próprios doentes e seus familiares a compreendessem perfeitamente, dando-lhe apoio.

Entretanto, nos hospitais privados não há greves. Quem tem dinheiro resolve os seus problemas e por isso se pode dizer que as greves nos hospitais públicos são greves contra os mais desprotegidos.

(Em Diário do Minho, 21/09/17)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cadastro predial

Tenho muita dificuldade em compreender por que não temos, ainda hoje, um cadastro predial rigoroso e completo, nomeadamente dos prédios rústicos no nosso país.

A sua utilidade é muito evidente e sem ele não é possível fazer reformas de que o nosso país tanto precisa. Anuncia-se hoje, terça-feira, dia 18 de Julho de 2017, na rádio, que se chegou a acordo na Assembleia da República quanto à reforma florestal. É uma boa notícia, mas temos razões para temer que fique apenas no papel, não devendo ser, no entanto, esse receio motivo para não a aplaudir e lutar por ela.

Um breve parêntesis para dizer que custa ver que não se consegue facilmente, em Portugal, celebrar acordos efectivos sobre questões tão importantes como estas. Fala-se muito, decide-se pouco e executa-se ainda menos.

Aqueles que dizem que a luta política atrapalha em vez de ajudar a resolver problemas e que isso se agrava quando o regime político é a democracia, encontram aqui argumentos. Mas não deve ser assim. A democracia é também o regime do bem comum e dos consensos. E custa não haver consenso quanto ao cadastro predial de que acima falávamos. Acresce que, depois do acordo quanto à necessidade, trata-se de o executar e nos dias de hoje, com os meios tecnológicos que temos ao dispor, fazer esse trabalho não é difícil, nem seguramente muito caro. É evidente que deve ser bem feito e isso pode implicar que não se possa fazer em poucos meses, mas se houver mesmo vontade de o levar a cabo também não demorará muito.

É claro que isso poderá implicar conflitos sobre os limites e acerca dos titulares da propriedade, mas uma lei bem feita terá isso em conta e encontrará formas de resolver esses conflitos de modo rápido, utilizando meios alternativos de resolução de litígios que a Constituição e a lei permitem.

Pessoa amiga dizia-me a este propósito que tem, no centro do país, um conjunto de prédios relativamente pequenos, que não sabe ao certo, nem onde se situam, nem os limites. Dizia-me ainda que para descobrir tais prédios tinha de se socorrer de pessoas de idade muito avançada que conhecem os lugares e indicam, com mais ou menos certeza, os limites e os proprietários. Como é possível que estejamos ainda nesta situação?

(Em Diário do Minho, 20/07/17)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Serviço obrigatório pela pátria

1. Diz o n.º 1 do artigo 276.º da Constituição que "a defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses". O n.º 2 do mesmo artigo estabelece que "o serviço militar é regulado por lei, que fixa as formas, a natureza voluntária ou obrigatória, a duração e o conteúdo da respectiva prestação". Este artigo contém ainda vários outros números relativos, nomeadamente, ao serviço cívico e à objecção de consciência que, por brevidade, omitimos aqui.

2. A defesa da pátria é, efectivamente, um direito e dever fundamental de todos os portugueses, não podendo, no entanto, restringir-se ao aspecto militar. Este é, sem dúvida, importante, mas importante é também ter em conta outras dimensões da defesa da pátria. Estamos convencidos que Portugal muito teria a ganhar com a entrega, por parte dos seus cidadãos, de uma parte da sua vida ao bem do seu país. Essa entrega não implicaria que os cidadãos tivessem de pagar para prestar esse serviço, pois teriam alimentação e alojamento, bem como a atribuição de uma verba, ainda que modesta, para transporte e outras despesas, mas não seria, de nenhum modo, uma retribuição de tipo salarial.

3. Com essa dedicação, o país poderia ter umas Forças Armadas prontas para a defesa do território e para lutar pela paz em qualquer ponto do globo e podia ter, também, jovens dedicados a missões de outro tipo. Não é preciso pensar muito para ver o que podia ser feito, por exemplo, em favor da promoção, valorização e defesa da floresta no nosso país, tendo em conta o estado em que ela se encontra neste momento. Acresce, ainda, que esta dedicação à pátria deveria incluir nela o trabalho voluntário, no país ou fora dele, de acordo com regras bem definidas.

4. Este serviço à Pátria existiu no nosso país até 2004, data em que foi efectivamente abolido o serviço militar obrigatório. Não se trata pura e simplesmente de o retomar, nos mesmos moldes, mas de o adaptar aos nossos dias. Sabemos que há uma forte corrente de opinião contra a obrigatoriedade do serviço militar ou cívico, mas tal não impede que defendamos esta posição. No que toca às forças armadas, a falta de obrigatoriedade do serviço militar faz com que o recrutamento seja feito com base no pagamento, o que nos faz lembrar indesejáveis exércitos de mercenários. No que toca ao serviço cívico, a prestação deste poderia ajudar a resolver problemas nacionais e a criar riqueza de que beneficiariam todos os portugueses.

5. O serviço obrigatório, militar ou cívico, serviria para formar cidadãos mais conscientes e mais solidários. Temos consciência da dificuldade de organizar um serviço com tais características, mas seriam dificuldades superáveis. Difícil, difícil é continuarmos numa situação que torna os portugueses insolidários e sem uma adequada educação cívica.

(Em Diário do Minho, 13/07/2017)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Electrificação das linhas ferroviárias e comboios regionais

O atraso que se verifica no nosso país em termos de vias ferroviárias está bem patente no facto de, já bem entrados no século XXI, ainda termos linhas não electrificadas.

O troço Nine-Valença está por electrificar e só agora começaram as obras de electrificação neste troço da Linha do Minho. Para o troço Viana do Castelo-Valença só há previsões.

Por sua vez, o troço entre Caíde e Marco, se tudo correr bem, terá a sua linha electrificada no fim deste ano de 2017 (embora a obra já devesse estar concluída em 2016). No troço Marco-Régua apenas se lançou há dias um concurso, não para a sua electrificação, mas para a realização de um estudo prévio, de impacto ambiental e para o projecto de execução da electrificação.

Os meios de comunicação social desta região devem estar bem atentos a estas obras para evitar que derrapem, quer nos prazos de execução, quer nos custos. Sem pressão das autarquias locais e dos cidadãos o natural, no nosso país, são os atrasos e aumentos de custos.

Em breve realizar-se-á uma sessão no município de Famalicão em que se fará o ponto da situação e discutirá a questão da electrificação da Linha do Minho. Repare-se que, em muitos outros troços ferroviários, a electrificação está por fazer, não havendo, que saibamos, um plano para levar a cabo uma electrificação generalizada a nível nacional.

Passando das infra-estruturas para o transporte, temos uma má ideia dos comboios regionais, pois aqueles que melhor conhecemos são os que seguem para Viana e Valença e não se recomendam, tão velhos que são e com uma linha não electrificada.

Fazem, no entanto, muita falta bons e rápidos comboios regionais a ligar, nomeadamente, Braga, Famalicão, Porto, Aveiro e Coimbra. Já temos, neste percurso, os comboios de longo curso (Alfa e Intercidades), mas não chegam e são demasiado caros.

Se queremos, e devemos querer, que as pessoas utilizem transportes públicos, então temos de oferecer boas condições que actualmente não existem.

P.S.: – Tive o gosto de conversar, na passada quarta-feira, com o Dr. Fernando Alberto Ribeiro da Silva, em Guimarães, numa sessão da Sociedade Martins Sarmento. Que falta continuam a fazer bons governadores civis, enquanto não houver regiões administrativas, no nosso país. Eles eram, quando bem escolhidos, elementos muito úteis para a boa administração pública. A decisão de acabar com os distritos, contra o que dispõe a Constituição, neste período transitório, foi uma má decisão.

P.S. 2: É bom ver e ouvir a chuva nestes dias, depois de meses de seca e tempo quente. É apenas ainda muito pouca.

(Em Diário do Minho, 30/06/17)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Elogio da ASAE

O cidadão, por definição, não é um súbdito. Tem consciência dos seus direitos. É exigente. Exige que os alimentos, nomeadamente a carne e o peixe, cheguem à sua mesa em condições de serem consumidos com benefício para a saúde.

Temos, em Portugal, um serviço denominado Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) que tem por missão (entre outras) zelar pela qualidade dos alimentos. Bastaria que cuidasse dos alimentos, mas colocaram-lhe em cima ainda outras absorventes tarefas no âmbito da economia e por isso tem um E na sigla.

A actividade da ASAE tem sido muito divulgada nos meios de comunicação social, dividindo-se a opinião entre aqueles que a aplaudem, por defender a saúde dos cidadãos, e os que a criticam por exagero na sua intervenção e por colocar em risco as empresas que trabalham no sector. 

Pertencemos ao grupo daqueles que consideram da maior importância a actividade de um organismo como a ASAE e defendem que ela deve ser muito eficaz, dentro da lei. Repare-se que muitas vezes, na ânsia do lucro, ou para evitar prejuízos, se lançam produtos no mercado que nunca deveriam ser consumidos.

Temos tendência para não dar o devido apoio a estes organismos de inspecção, mas uma sociedade devidamente organizada não dispensa esta acção fiscalizadora de modo competente, contínuo  e qualificado. Não sabemos se os recursos humanos  da ASAE são suficientes. Tentaremos saber.

P.S.: Aproveitem enquanto é tempo o cheiro das flores de tília neste mês de Junho de 2017. Costumo apreciar mais à noite porque ando habitualmente a essa hora na cidade onde moro, mas dizem-me que, de manhã, ainda é melhor.

P.S. 2: Ainda ando às voltas com a MEO, apesar de esta ter reconhecido o erro que cometeu. Mas hoje o que venho dizer é isto, que me espantou. Como sabem, depois de qualquer contacto fazem-nos duas perguntas, sendo a segunda sobre a qualidade do serviço, perguntando-nos se recomendaríamos a MEO. A resposta é de 1 a 10, sendo naturalmente o 10 a nota de completa satisfação. O que não é natural nem normal é saber (lemos isso) que até 6 qualquer resposta é negativa e que 7 e 8 não são apreciação positiva ou negativa (neutro). Apenas 9 e 10 são respostas positivas que podem beneficiar os funcionários que avaliamos. Que desfaçatez e falta de respeito por nós, que somos enganados, e pelos trabalhadores da MEO, que são prejudicados!

(Em Diário do Minho, 16/06/17)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Conselhos raianos

A Associação RIONOR organizou, em colaboração com o Instituto Politécnico de Bragança, no âmbito dos Laboratórios de Participação Pública, uma sessão sobre acessibilidade e coesão territorial. Esta assembleia (conselho raiano) teve lugar na emblemática Domus Municipalis de Bragança, no passado dia 29 de Abril de 2017, da parte da tarde, integrando dois painéis.

Um primeiro painel foi dedicado ao tema "Caminhos de Ferro: passado e futuro", moderado pelo Professor Universitário de Salamanca e Alcalde de Morille, Manuel Ambrósio Sanchéz-Sanchéz, contando ainda com a participação do: Dr. Daniel Conde, fundador do Movimento Cívico pela Linha do Tua, que tratou o tema "Caminhos de ferro em Trás-os-Montes – vamos discuti-los?"; do Eng. José Maria Fraile Cuellar, engenheiro técnico de obras públicas, que abordou o tema "Los ferrocarriles del Oeste"; de Rui Alberto Vilaça, colaborador da Fundação do Museu Nacional Ferroviário; e do Eng. José Mário Leite, engenheiro electrotécnico, que apresentou o tema "Carro ou avião? Comboio é solução".

O segundo painel, dedicado à cidadania, mobilidade e coesão territorial, teve a intervenção do Eng. Rui Caseiro, vice-presidente da Câmara Municipal de Bragança, que abordou o tema "A mobilidade dos cidadãos nos territórios raianos"; do Dr. Javiér Callado Covo, que abordou "La permeabilidad al transporte y competitividade en la raya"; do Prof. Dionísio Gonçalves, que apresentou o tema "Ligações transfronteiriças", e, finalmente, do Eng. Fernando Teixeira de Barros, Presidente da Câmara Municipal de Vila Flor, que abordou o projecto de desenvolvimento do Vale do Tua, no âmbito das medidas de compensação da construção da barragem.

O encerramento da sessão esteve a cargo do Presidente da Câmara de Bragança, Dr. Hernâni Dias.

Tive a oportunidade de falar no primeiro painel sobre o futuro do transporte ferroviário e, particularmente, da acção desenvolvida pela Associação Comboios Século XXI. Defendi ainda que este meio de transporte deve ser uma prioridade no nosso país, não só no litoral, sendo necessário construir uma nova linha Porto- Lisboa que permita circular à velocidade do Alfa (220 km/h), o que faria com que a ligação entre as duas cidades se fizesse em cerca de uma hora e meia, mas também no resto do país, desde logo com a criação de uma ligação à Europa através da vizinha Espanha, mostrando-se, ainda, essencial o melhoramento do transporte regional.

Foi interessante verificar que, numa altura em que se fecham (ou tentam fechar) linhas, os habitantes do distrito de Bragança reclamam uma ligação a Puebla de Sanábria para que possam usufruir do comboio de alta velocidade, já praticamente concluído, que liga Vigo a Madrid e que passa a pouco mais de 30 km da cidade de Bragança.

Foi uma sessão muito interessante e participada, que contou também com a colaboração da União de Freguesias da cidade de Bragança e que promoveu, assim, a luta pelo desenvolvimento do interior a partir de iniciativas dos próprios raianos.

Sempre defendemos que aos raianos compete lutar, em primeira linha, pelos interesses do interior, ainda que com a colaboração de todos aqueles que sentem a necessidade da coesão territorial do nosso país.

(Em Diário do Minho)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Cuidado com a Meo!

Resumo (muito resumido) de um telefonema vindo da MEO há mais de um mês, enquanto estava a trabalhar.

MEO – Estivemos a estudar o seu caso e queremos que usufrua dos benefícios da fibra óptica, que tem condições para receber em sua casa e que tem enormes vantagens.

A pessoa (jovem) ao serviço da MEO enumera um largo catálogo de vantagens e respondo logo que abro mão de metade delas se me baixarem o preço do contrato que está em vigor sem a tal fibra. Digo que não preciso de tantos canais de televisão, nem de tantos gigas, interessa-me apenas a maior velocidade na internet de que falam.

MEO – Não podemos fazer o que pede. Faz parte do pacote! 

ACO – Diga-me, então, quanto vão custar essas enormes vantagens?

MEO – Quanto paga actualmente?

ACO – [cerca de] 72,00€.

MEO – A nossa oferta, que é muito mais vantajosa, vai custar-lhe apenas alguns cêntimos mais. Não chega a €1,00.

ACO – Tudo bem. E não há mais encargos? 

MEO – Não.

A instalação foi feita. Passado cerca de um mês recebo uma factura de €92,00. Ligo à MEO para o número de apoio ao cliente.

ACO – Bom dia. (apresentações e identificação). Minha senhora, disseram-me em telefonema que ficou gravado que não havia aumento significativo na passagem para a fibra ótica e agora, passado um mês, tenho de pagar mais €20,00?

MEO – Um momento, vou analisar. […]

MEO – O Sr. António não leu o contrato que lhe enviámos?

ACO – Como? Telefonam-me, gravam a chamada, disse que só aceitaria a mudança para a fibra óptica se não houvesse aumento significativo e agora mandam-me ler o contrato?

MEO – Pois…! Vou passar para (...).

ACO – Não passa nada! Não vou ficar aqui pendurado à espera para contar a história de novo a outro(a) colega. Ou resolve ou desligo e saberei como agir.

MEO – Mas…

ACO – Não insista! Ou me dá uma resposta ou desligo de imediato.

A operadora ficou de tomar conta deste assunto e telefonar para o número de telemóvel que me pediu, e lhe indiquei, no espaço de dois ou três dias. Aguardo e darei notícias!

P.S.: É duro o trabalho destas telefonistas que precisam de defender o patrão que lhes paga…

(Em Diário do Minho, 27/04/17)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O sofrimento e a família

Tenho muita dificuldade em enfrentar o sofrimento que a vida provoca a tanta gente. Não estou a falar de mim. Estou a falar do sofrimento que vejo.

Terça-feira, no Dia dos Namorados (mais uma invenção da sociedade do consumo que mete no mesmo saco namorados, casados e tudo o que sirva para fazer negócio), deparei com uma mãe e vários filhos na rua, já noite dentro, à procura de um membro da família.

Não pude ficar indiferente ao olhar triste de uma das crianças, perto dos 10 anos, agarrada ao casaco da mãe, que não queria conversa, queria o pai.

Não interessa saber mais pormenores e desejo vivamente que isto tenha sido um pequeno caso resolvido sem grandes problemas. Mas quantos casos dramáticos deste género e piores não se estão a passar perto de nós, na nossa terra ou região, para não ir mais longe.

Como é isto, que mundo é este que acreditamos ter Deus na sua origem e no acompanhamento dia-a-dia? Como compreendo os ateus e agnósticos! E, no entanto, não pode ser assim. Este sofrimento não pode ser vão. Deus há-de reparar todo este sofrimento e só Ele o pode fazer.

Só isso me permite ficar mais tranquilo, sem que essa tranquilidade signifique que nada tenha a ver com o sofrimento. Tenho tudo a ver e cabe-me lutar contra ele. Fazer tudo o que está ao meu alcance para o evitar, mesmo sabendo que posso fazer muito pouco. Mesmo sabendo que esse brutal sofrimento continuará.

Esse muito pouco é uma obrigação grave. Fazer o que estiver ao nosso alcance por um mundo melhor, com um pouco mais de alegria e um pouco menos de sofrimento, é o maior mandamento que temos.

E como é bom ver a alegria de uma família, com os seus problemas, é certo, mas com a alegria que também a vida proporciona, quando bem vivida!

P.S.: O Doutor João Carvalho, presidente do IPCA (uma instituição de ensino superior a que estou muito ligado pela participação na sua comissão instaladora, presidida pelo Professor Lopes Nunes), tem feito um trabalho notável, elevando-o a um alto patamar no nosso país e fora dele. Não esquecemos também o quanto tem contribuído para o conhecimento das finanças do poder local ao nível dos municípios e mais recentemente das freguesias. O Anuário Financeiro é uma publicação de relevo nacional e muito bem conhecida. Agora que o sofrimento lhe tocou violentamente à porta, tomou a decisão que bem gostaríamos que não tivesse de tomar. Obrigado, João Carvalho, pelo trabalho feito, lembrando também o tempo que estivemos juntos na Universidade do Minho!

(Em Diário do Minho)

sábado, 28 de janeiro de 2017

Viva a chuva, mas...!

Depois de meses de seca (durante este inverno não houve ainda nenhuma cheia nos rios), veio a chuva. Ontem e hoje (dias 26 e 27 de Janeiro de 2017) tem chovido bem. Que bom! Parece ser este um tema menor para ser tratado num artigo de opinião, mas não é. A importância da água só é bem apreendida com a falta dela.

É preciso que chova ainda muito mais, ainda que aborreça. Fui ver no momento em que escrevo estas linhas a meteorologia e ela anuncia chuva para os próximos oito dias. Mas quem se fia nestas previsões? Elas têm falhado tanto! 

Lembro-me sempre, nestas ocasiões, de um médico veterinário municipal que trabalhou em Famalicão que verberava quem dissesse mal da chuva. "Água é vida", dizia o Dr. Pinguinha com toda a razão. A chuva alimenta as fontes e armazenamentos de água (especialmente as barragens) que são tão necessárias para abastecer, não só as populações, como para produzir energia eléctrica. E como ela é preciosa para os campos e montes. Já se começava a ouvir dizer que não havia pasto para os animais, preparando-se os agricultores para pedir ajudas do Estado.

A chuva é bem-vinda, mas não se pode esquecer os problemas que traz a quem a sofre. Estamos a pensar a quem trabalha e não tem a proteção ncecessária e principalmente nas crianças e estudantes que têm de se deslocar para as creches e escolas com horários certos. Os estabelecimentos escolares e pré-escolares devem estar atentos e preparados para tomar as medidas apropriadas.

As autarquias locais que tratam dos transportes escolares deverão, por sua vez, ter também acção neste particular domínio para evitar doenças que podem ser graves se não forem devidamente prevenidas e tratadas.

Trata-se, é certo, de mais despesas para as freguesias e municípios, mas isto diz bem da importância destes entes locais que são sempre chamados a ajudar a resolver problemas das suas populações.

P.S.: As eleições para o conselho geral da UM já mexem e os meios de comunicação social vão dando algumas notícias. Será que vamos ter só um candidato a reitor da Universidade do Minho? Seria uma manifestação de pobreza da instituição e, já agora, uma grande "seca"!

(Em Diário do Minho)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Estar do lado certo

Tenho muita dificuldade em compreender que alguém que possui rendimentos ou bens que lhe permitem viver tranquilo, nomeadamente no que respeita à alimentação, a cuidados de saúde e à habitação, não se preocupe seriamente com aqueles que não possuem o essencial para viver dignamente. Igual dificuldade sinto em compreender que alguém que viva em paz no território onde reside, não se preocupe com as pessoas que sofrem os horrores da guerra, esse monstro de que falava o Padre António Vieira.

Devemos ser interpelados por estes sofrimentos e agir em conformidade. Uma forma muito próxima consiste em ajudar quem necessita e, se não directamente através de esmolas, pois estas não costumam resolver problemas, então através de apoio a entidades de solidariedade que auxiliam quem precisa a nível local, nacional ou internacional.

Outro modo de manifestar preocupação é lutar por uma sociedade mais justa e, desde logo, por uma economia de partilha e não de consumo. Custa-me ver a exibição de tantos bens de luxo quando tantos não têm os bens essenciais. Custa-me ver os supermercados cheios de alimentos que estão à espera do fim do prazo de validade para irem, na sua grande maioria, para o lixo.

Acredito que, se os bens que produzimos fossem devidamente distribuídos a nível nacional e internacional, a fome e a sede não teriam lugar ou pelo menos não seriam um grave problema para milhões e milhões de pessoas.

É certo que não é fácil construir uma sociedade justa, nem sequer fazer chegar, muitas vezes, os bens essenciais a quem deles necessita. Mas alguém tem dúvida que se houvesse vontade forte dos cidadãos e, com eles, dos governantes a nível nacional e internacional tais objectivos seriam conseguidos? Lutar pela paz é outra preocupação que devemos ter. Ajudar, pelas formas que estiverem ao alcance de cada um de nós, os que trabalham pela paz.

Neste domínio há um problema que nos envergonha a todos, que é a venda de armas. Alguém tem dúvida que se houvesse vontade forte a nível nacional e internacional (e nesta coisa das armas os países que as produzem e vendem estão bem identificados e são países ricos), as guerras seriam menos duradouras e menos horrorosas? Muitos sentirão a impotência para lutar contra tão grandes males. Mas se pensássemos no que cada um de nós pode fazer (e o fizesse) e não no que os outros podem fazer, estou seguro que o mundo mudaria para muito melhor.

É tarefa de cada um de nós estar do lado certo. Do lado da paz, da dignidade de todas e de cada uma das pessoas.

(Em Diário do Minho)