sexta-feira, 28 de agosto de 2026

15 de Agosto: uma festa de família especial

O que é de admirar não é a realização de mais uma festa de família no passado dia 15 de Agosto que juntou numa associação recreativa de Brufe (Vila Nova de Famalicão) largas dezenas de pessoas ligadas por um laço de sangue directo, na qualidade de filhos, netos e bisnetos de António Oliveira e Maria de Ascensão Oliveira, nascidos no fim do século XIX em Vila Nova de Famalicão e casados em 1920, mas antes a persistência desta festa ao longo de mais de 70 anos.

Foi na verdade ainda na primeira metade dos anos 50 do século XX que a família Oliveira, uma família humilde que utilizava táxis para se deslocar, começou a reunir-se em Amarante, no dia 15 de Agosto, para festejar o aniversário da Irmã Maria de Jesus, segunda filha do casal e religiosa no Colégio Diocesano de São Gonçalo, onde era professora e no qual as regras rígidas pré-conciliares não permitiam uma fácil saída da comunidade religiosa.

Reuniam António de Oliveira e mulher alguns dos filhos mais velhos e já alguns dos ainda muito poucos netos. Era uma reunião de pouco mais de uma dúzia de familiares com os respectivos consortes no Parque Florestal a jusante da Ponte de São Gonçalo, com um apreciado piquenique e bolos conventuais, não dispensando o patriarca da família e mais alguns presentes um banho nas águas do rio Tâmega.

Assim sucedeu durante cerca de uma década e não foi o golpe profundo dado pela morte prematura (1969) de um dos iniciadores e maiores animadores da festa, o meu pai, António Maria de Oliveira, que interrompeu estas reuniões de Agosto.

Tomou as rédeas a Irmã Maria de Jesus, com realização da festa em Amarante e noutros locais, pois as regras muito mais flexíveis que resultaram do Concilio Vaticano II assim permitiam. As festas sucediam e não foi a morte igualmente prematura da Irmã Maria de Jesus (1978) que impediu a continuação das reuniões familiares de 15 de Agosto, data de nascimento também do filho Adriano, emigrante em França.

Passou a tomar conta da organização a também religiosa Irmã Maria Emília da mesma ordem franciscana, quinta filha do casamento, muito dedicada à família, e que serviu, como enfermeira, no Hospital de Santo Tirso, no de Guimarães e depois no Hospital do Carmo (Obstetrícia) durante décadas.

A família ia crescendo, as reuniões juntavam cada vez mais pessoas, por vezes mais de uma centena, nuns anos mais, noutros menos, e não foi sequer a morte do patriarca António Oliveira (1988) que fez cessar estas reuniões.

Os filhos do casamento de 1920 foram dez e pela seguinte ordem de nascimento: António (1922), Beatriz (1923), Álvaro (1925), Alfredo (1927), Engrácia (1928), Silvina (1930), Adriano (1932), Alípio (1936), Maria do Carmo (1938) e Alberto (1946).

Outros filhos mais velhos tomaram conta da organização da festa e apesar de restarem hoje apenas dois (filha e filho), alguns netos mais activos sucederam na organização e a festa continua.

Podemos até dizer que agora esta festa é uma reunião de famílias, embora todas entroncando na inicial família Oliveira de meados do século XX. Ainda que quase todas estas famílias residam no concelho de Famalicão, um forte ramo está em França (cerca de Paris) e outro em Macedo de Cavaleiros.

Impressiona a quantidade de gente nova que se junta nestas festas, começando de manhã com uma missa da família que durante muito anos teve um padre convidado e agora está integrada na missa da paróquia onde a festa tem lugar e depois se prolonga durante o dia com almoço (piquenique), jogos e convívio. E no fim da tarde não falta desde há alguns anos uma bem apreciada sardinhada. Impressiona também a integração nesta festa anual dos cônjuges dos familiares e mesmo de algumas pessoas amigas muito próximas.

Durante o dia muitas conversas se travam, muitas notícias se trocam e ficamos a saber ou relembramos, por exemplo, que temos agora em França uma trineta de António Oliveira e mulher com seis filhos e na margem sul do Tejo um bisneto casado com uma chinesa e já com um filho. Os membros mais novos da família merecem especial atenção de todos.

A família Oliveira é uma família que não se distingue de muitas outras famílias portuguesas numerosas com a mesma origem humilde, formada em meados do século passado, tendo, desde então, evoluído muito económica e culturalmente, mas com esse traço característico que é o da reunião em alegre festa familiar no dia 15 de Agosto de cada ano.

Qual a razão desta continuidade? É uma pergunta com resposta certamente diferente de participante para participante, mas que para mim se encontra nas lições recebidas ao longos destes anos sobre a importância da família e dos laços que dela decorrem, apesar de todos os problemas, desilusões, desencantos, dores, dramas, tristezas profundas e outros males por todos sofridos. Há sempre quem diga: vale a pena!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Pela paz, sempre!

Há quem afirme convictamente que a política é poder e interesses, querendo dessa forma dizer que a política é uma luta pelo poder para defesa dos interesses de quem o alcança. 

Mas também há quem afirme que a política é a luta pelo bem comum e pelo respeito dos direitos humanos. O poder político existe para defesa do bem de todos, com o consequente respeito pelos direitos fundamentais das pessoas.

O problema é saber de que lado estamos. Uns veneram a força, outros veneram o direito. Pela nossa parte, não temos dúvidas. Estaremos do lado da política como luta pelo bem comum, pelos direitos das pessoas a nível local, regional, estadual, europeu e mundial.

Estas concepções da política podem ser testadas a nível estadual nos recentes casos da Ucrânia, da Palestina e da Venezuela. Os que defendem que é normal que um país interfira noutro estão do lado da força bruta e acham normal o que fazem os actuais donos da Rússia, de Israel e dos Estados Unidos. Os que defendem o direito, nem precisam de recorrer aos excelentes e bem recentes  documentos da Igreja, basta lembrar que existe uma Carta das Nações Unidas (tratado internacional), subscrita pelos quase 200 Estados-membros da ONU, que diz logo, no seu extenso artigo 1.º, que deve ser lido atentamente, quase como uma oração laica e sem pressas:

"Os objectivos das Nações Unidas são: 1. Manter a paz e a segurança internacionais e para esse fim: tomar medidas colectivas eficazes para prevenir e afastar ameaças à paz e reprimir os actos de agressão, ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios pacíficos, e em conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajustamento ou solução das controvérsias ou situações internacionais que possam levar a uma perturbação da paz; 2. Desenvolver relações de amizade entre as nações baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal; 3. Realizar a cooperação internacional, resolvendo os problemas internacionais de carácter económico, social, cultural ou humanitário, promovendo e estimulando o respeito pelos direitos do homem e pelas liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião; 4. Ser um centro destinado a harmonizar a acção das nações para a consecução desses objectivos comuns".

Dir-me-ão: isso é bonito, mas não se pratica. Direi: tudo devemos fazer para que se pratique. Tudo o que estiver ao nosso alcance. A força é o poder dos fortes sobre os fracos. O direito é a defesa dos fracos contra os fortes. Não nos ajoelhemos perante os donos da força bruta. Não critiquemos as organizações internacionais que velam pela paz. Lutemos pelo fortalecimento e profunda renovação delas, mesmo que seja pouco o que podemos fazer individualmente. Silêncio é que não!

(Em Diário do Minho, 08/01/26)