Crítica e silêncio, em regra, opõem-se. Embora em certos e muito precisos contextos o silêncio possa constituir uma forte crítica, esta exprime-se exactamente contra o silêncio. Em vez de calar (ou manifestar apenas num círculo privado a sua opinião), alguém tem a coragem de criticar publicamente. A coragem é precisa, pois quem critica sujeita-se a ser criticado e a sofrer consequências por causa dessa sua atitude. Coragem tanto maior quando o autor indica factos concretos e autores, não se ficando, pois, por afirmações que poderemos afirmar constituir uma crítica ligeira (suave).
Se alguém diz ou escreve, por mero exemplo, que alguém usou o seu alto cargo público para favorecer despudoradamente pessoa amiga, prejudicando outras, ou que o processo eleitoral numa determinada organização, apesar de ser formalmente democrático, esteve longe de ser realmente democrático, ou ainda que determinada medida foi mal tomada e prejudicou a instituição ou a comunidade dela destinatária faz uma crítica suave. Uma crítica que, por vezes, só pode ser entendida por quem se revê nessa crítica. Esta é para mim, dirá em silêncio quem, porventura, se considerar visado.
Por isso é muito comum, infelizmente, o silêncio de quem podia e devia criticar. O raciocínio é simples: se eu não critico (e até aplaudo) sou bem visto e tenho o caminho mais aberto para conseguir o que pretendo. Se falo, só vou arranjar problemas. Dizia, mais ou menos isto, um humorista português bem conhecido pelos mais velhos: "a minha política é o trabalho e não me tenho dado nada mal com isso".
Criticar faz parte da educação para a cidadania que tão precisa é.
(Em Diário do Minho)
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