quinta-feira, 17 de junho de 2021

Os humanos humanos

O título "Os humanos humanos" parece uma repetição, mas não é. Todos somos humanos, mas nem todos somos humanos.

Por humanos entendemos os seres semelhantes a nós que vivem à face da Terra. São actualmente cerca de oito mil milhões, tendo a China mais de um 1,400 mil milhões e os Estados Unidos mais de trezentos milhões. Portugal tem dez milhões, o que significa um pouco mais do que um em mil. 

Mas são também humanos os que se caracterizam pela sua humanidade, querendo com isso dizer bondade, compaixão e ajuda pelo próximo. Numa palavra, os que se alegram com o bem do seu semelhante e os que sofrem com o seu sofrimento. E estes, então, são menos.

É dos humanos humanos que queremos tratar e dizer que eles devem ser o exemplo e o sentido da nossa vida. 

Como é bom ver um pai e uma mãe dedicados aos seus filhos e que se sacrificam, quanto necessário for, para o bem de todos. Homem (o mesmo se diga da mulher) que não abandona o lar porque sente e vive a responsabilidade de ter uma mulher e filhos. E não abandona o lar até tendo motivos para o fazer, mas considerando que são maiores as razões que o levam a manter a vida familiar, desde logo pelo bem dos filhos.

Como é bom ver um casal sem filhos, que não azeda por esse facto e antes se preocupa com o bem-estar dos outros, desde logo as crianças, sabendo que todas as crianças do mundo são nossos filhos ou nossos netos, conforme a idade.

Como é bom ver humanos que não vivem só para si, para o seu bem-estar. Como é bom ver humanos capazes de perdoar as ofensas que lhe foram feitas, mesmo não rezando o Pai Nosso(ou rezando-o).

Humanos que, tendo sido ofendidos, humilhados, agredidos, presos ou vítimas de outro mal,   não se vingam, mas sofrem em silêncio, pedem justiça, mas não retribuem o mal que lhes foi feito. Apenas um exemplo: Nelson Mandela e a sua vida depois de 27 anos preso por razões políticas.

Humanos que sabem que devemos transmitir a natureza melhor do que a encontramos aos nossos filhos, às gerações futuras, e por isso a acarinham e procuram preservar e recuperar.

Humanos que, por culpa, desleixo, incúria nossa, talvez, precisam da nossa atenção, pois correm o risco de perder a dignidade e de se tornaram capazes de praticar as maiores atrocidades..

Tanto mais haveria a dizer. Estas linhas foram escritas em dia de Santo António (13 de Julho de 2021) e depois da releitura nestas semanas mais próximas de Fratelli Tutti e Laudato Si', recentes documentos da Igreja dirigidos aos crentes, mas também a todos os humanos.

(Em Diário do Minho, 17/05/21)

quinta-feira, 13 de maio de 2021

O direito ao lugar

É costume ouvir falar do direito à habitação, mas não do "direito ao lugar" da forma como ouvi no passado domingo (dia 9 de Maio de 2021, que é também o dia da Europa) na TSF pela voz de Helena Roseta e João Ferrão, duas personalidades bem conhecidas por quem anda atento aos problemas de habitação e de urbanismo do nosso país.

Trata-se de defender, não só, o direito à habitação, mas o direito das pessoas de habitar no lugar em que vivem, sem serem empurradas para fora dele por pressões inaceitáveis. Esse direito ao lugar, que deve existir para quem habita no centro das cidades e para quem vive no meio rural, é muito desrespeitado.

Quem vive no centro das cidades sente-se obrigado a sair dele. Ou porque os prédios em que habitam com rendas baixas se degradam e se tornam inabitáveis por falta das necessárias obras de reabilitação, ou porque as rendas de prédios com boas condições de habitabilidade são inacessíveis para o comum dos cidadãos. Acabam por sair para a periferia das cidades, onde encontram prédios com rendas mais baratas, ainda que com pouco espaço habitável. Os denominados T0, T1, T2 e pouco mais. Entretanto, o centro das cidades vai perdendo população, transformando-se em lugares de comércio e serviços, vivos durante o dia e mortos durante a noite. Tornam-se mesmo, nas grandes cidades, lugares perigosos para viver.

Por sua vez, quem nasceu e se habituou a viver em meios rurais ou em pequenas vilas do interior vê-se obrigado a mudar de lugar, geralmente para a periferia das grandes cidades, porque verifica que, apesar de ter até habitação muitas vezes condigna e espaço, não tem fácil acesso a serviços públicos essenciais como estabelecimentos de saúde, de educação e meios de transporte. Também têm frequentemente muitas dificuldades no que respeita ao acesso ao emprego por falta de dinamismo económico das terras que habitam. Acresce que consideram que só nas grandes cidades podem dar melhores oportunidades aos seus familiares, nomeadamente aos seus filhos.

Por razões diversas, habitantes dos centros das cidades e dos meios rurais acabam por se encontrar juntos em lugar que não desejavam: a periferia das cidades.

E isto teria de ser assim? Entendemos que não. O centro das cidades deveria ter habitação a preços razoáveis, pois uma cidade faz-se com pessoas e enriquece-se com a existência delas e os meios rurais deveriam ter serviços essenciais a distância razoável e bons meios de transporte.

E como seria isso possível? Por políticas públicas adequadas que procurassem enriquecer o centro das cidades também com pessoas e tivessem em conta que um país com a população distribuída por todo o território nacional – e não concentrada apenas em Lisboa e Porto – seria um país mais rico, não de uma riqueza feita de concentração de fortuna nas mãos de poucos, mas da sua distribuição pelo maior número possível de cidadãos. E, principalmente, possuidor de uma riqueza que não se mede com dinheiro, mas qualidade de vida.

Isto leva-nos a falar de economia e de política, utilizando desde logo, mas não só, recentes documentos, que concretizam a doutrina social da Igreja.

(Em Diário do Minho, 13/05/21)